Domingo, Novembro 23, 2008
Minha barriga não someSe eu digo “Ai, eu não consigo perder essa barriga!”, posso ter 5 possíveis reações de 5 diferentes namorados:
“Cala boca, você é lindo”.
“Hum, mas eu adoro sua barriguinha!”.
“Relaxa, o que encanta em você é seu sorriso e seu interior”.
“Mas você não tem barriga!”.
“...” (Silêncio).
O que provavelmente devo ter pensado no primeiro caso - “Cala a boca, você é lindo”? No primeiro momento, você acha lindo o que seu amor disse e se sente aliviado. Porque apesar de tudo, ainda existe alguém que te ache lindo. Mas depois, pensando melhor, você pensa: Esse cara só quer me agradar, é um mentiroso, não sou lindo, está querendo tapar o sol com a peneira, é um sedutor com charme premeditado e ensaiado, quer ganhar meu coração fácil com mentiras. Pensa que sou carente? Não sou. Então, termino!
E no segundo caso: “Hum, mas eu adoro sua barriguinha!”? No primeiro momento, você se sente aliviado, porque alguém nesse mundo não te pressiona a ter um corpo perfeito, e gosta de você do jeitinho que você é, reconhece que sua barriga inexorável até te dá um charme. Mas pensando melhor: Cara, essa barriga é horrível, você quer me ver feio, é isso, não é? Quer que eu me acomode nesse relaxo. Aliás, eu sei, na verdade é um mentiroso, porque eu sei: você nem adora esse coisa. Eu sei. Você vive secando os tanquinhos dos carinhas no parque. Merda. Está tudo acabado entre nós!
Terceiro caso: ““Relaxa, o que encanta em você é seu sorriso e seu interior”? Meu interior? Ah, está me chamando de feio, né? Você me acha feio! Eu sei, pois fique sabendo que já tive namorados que me achavam lindo. E relaxa? Como assim? Você quer ignorar a minha barriga? Olha, fique sabendo que ela também é muito digna de amor, pois já tive namorados que adoravam minha barriga. Ah, sei, está me chamando de fútil, por estar com essas preocupações externas, né? Pois você sabe muito bem que eu tenho muita vida interior, aliás, é disso que você gosta, né? Sou quase discípulo da Clarice Lispector. Mas eu também sou filho de Deus e como bom filho pecador de Deus, também invejo a barriguinha da Madonna e dos carinhas do parque. Olha, eu sei, eu sei que o dia que eu ficar bem gordo mesmo, você vai querer me trocar por esses e vai esquecer da minha vida interior e vai vir com essa história: Olha, o amor acabou. Mas antes que isso aconteça, é melhor a gente terminar. Não, não quero conversar. Acabou!
Quarto caso: “Ah, você não tem barriga”. Ah, você diz isso porque é um gordo! E cego, hipócrita e mentiroso. Eu já conheço esses tipos. Não quero mais, não quero. Chega!
Quinto caso: “...”. Por que esse silêncio funerário? Ah, sim, diante da verdade não há nada a dizer: Existe a morte e existe a minha barriga. Olha, eu sei, você tem vergonha de dizer o que está pensando, está pensando coisas terríveis sobre mim, não? Fala comigo. Não temos nem diálogo nesse relacionamento. Ou você tem medo de falar comigo? Acha que qualquer coisa que você diga, eu posso brigar com você, né? Olha, eu não sou esse monstro. Pode falar, fala, por favor. Não me deixe falando sozinho! Fala! Fala! Não dorme não, não fecha os olhos, estou tendo uma conversa séria, uma crise existencial e você permanece assim indiferente. Eu só preciso de amor. Coisa que aliás acho que você não pode dar, porque não me dá nem uma palavra, me ignora e fica quieto. Quer saber? Cansei!
Se nenhuma das respostas te satisfez, provavelmente o problema é exclusivamente teu. Ou reclame sozinho e não julgue seus namorados ou perde essa barriga de vez. Que no fundo não é barriga, é medo de amar e ser amado humanamente. Não pense em terminar por causa dessas suas neuras. Aliás, não reclame que está sozinho. Você nunca aceitou as pessoas mesmo, nunca aceitou o jeito que as pessoas eram, te viam e te gostavam. Oportunidades você teve, mas nunca quis acreditar, nem aceitar. As pessoas são gente como você, oras, aceite isso. 9:52 AM |
Terça-feira, Novembro 20, 2007
O Homem Sem AlmaEu vivo como um sonâmbulo. Na verdade, nada me parece realmente sério, não levo a minha vida muito a sério. Se amanhã é o dia da minha morte, se ela é certa, não é a minha maior preocupação. Se deus existe, se estou rezando pouco para proteger a minha alma, também não é uma grande questão. Se eu recebo a notícia de morte de mil e trezentas pessoas em uma tragédia do outro lado do mundo ou na vizinhança, leio sem muita dor e esqueço. Se meu melhor amigo está doente, penso, com indiferença: não há razão para me afligir e nem é necessário sofrer – vai passar. Se eu encontrei meu amor, não me sinto sobre as nuvens e entre delírios de paixão como as histórias que se lê. É simplesmente bom, mas um bom sem alívio, é um bom como ausência de dor e também de alegria intensa, como ausência propriamente dita, sem a presença de corpo, como se eu não estivesse vivendo minha vida. Antes vivia aflito como que num ensaio para a grande vida, hoje vivo como que em um abandono, sem expectativas ou crenças numa vida mais verdadeira. Durmo assim ao lado do corpo querido ou corpos desconhecidos, sem aquela aflição de unir o coração com outro - sem poesia. Não narro mais para mim mesmo a minha vida, não busco compreendê-la numa lógica, num começo, com um fim. É como se minha vida não acontecesse. Ou se acontece, acontece fora de mim, como um rio que passa numa floresta desconhecida que eu ignoro seu percurso e sua existência. Se eu trabalho, mal posso esperar para desfrutar do meu próximo salário e pela hora de ir embora. Não penso na minha carreira, no futuro, nas tarefas a cumprir e no próximo passo. Como leitor, eu não sou aquele que poderia ser apontado como um ávido por conhecimento ou grandes questionamentos da existência, pois muitas vezes me pego apenas distraído, a deixar que as palavras e as reflexões dos autores se desenrolem sobre meus olhos e me façam apenas cócegas no cérebro e não muito mais que isso. Vivo como que automático, sem tocar a vida com profundidade e afinco, sem dedicação quer seja ela prática ou espiritual. Vivo no raso, no superficial, apenas cumprindo os tempos vazios. Vivo sem construir. Leio sem aprender. Trabalho sem acumular. Para sair desse ciclo talvez maldito, tento aventuras, mas me frustro. Tento então pequenas diversões: festas, viagens, livros, filmes e beijos. Mas é só isso. Alegrias e monotonias intermináveis, sem grandes clímax ou conclusões. Mas também sem crises. Minha alma vazia esvazia o mundo todo de significados. Sigo sem missão. Luto sem convicção, para ter tudo que se chama de felicidade. Tudo mas nem tanto. Nem erro, nem acerto. É como se eu andasse sem direção, simplesmente para não cair. Sei bem que nesse ritmo não encontrarei a glória, mas também não serei nenhum desgraçado. Se eu sou feliz ou infeliz nesse estado de espírito, é inútil pensar. É um estado sereno, distraído e sonambúlico. Talvez seja esse o modo que encontrei para controlar a minha vida na medida e na intensidade em que meus nervos suportam. Talvez optei apenas por ser um medíocre, resignado e anônimo. Tranquei a minha fera a sete chaves - e já não sei mais sair, assim durmo em vida e morro discretamente. 7:42 AM |
Terça-feira, Julho 03, 2007
O que Kafka quer nos dizer? Como é assustadora nossa solidão. Meu sofrimento não é o seu, nem o seu o meu. Cada um deve sofrer sozinho, dentro do seu próprio quarto. Existe um grande silêncio entre nós e uma profunda indiferença, até no seio familiar, até no seio do amor. Somos condenados por crimes que não cometemos, somos condenados a afogamentos diários pelos nossos veneráveis pais. Enquanto eu me definho em minha doença, me torno inútil e morro, o violino ainda toca, não é motivo de a festa parar. O mundo não pára de rodar, não acaba, amanhã pode vir a tão esperada felicidade da humanidade apesar de minha morte. O que é que eu queria? A liberdade, a vida sem culpa, o amor pleno, a verdadeira compreensão, a justiça eficaz, uma morte sem dor e digna, o eu como uma pessoa inteira e não coisa? É isso? Mas isso não existe, a coerência, a purificação das almas, a justiça, a liberdade plena são utopias. O chão em que pisamos e que construímos o real é o próprio absurdo. Beijemos então a parede que é a melhor forma de viver e de amar o mundo estúpido. Amemos por inteiro, então. Amemos os bichos, o rato e a barata também. Amemos nossas obras-primas, a burocracia e o estado também. Amemos o nosso destino e nossa condição, a miséria e a morte. E só assim viveremos serenamente, sem dor e rancor.Mas não quero me crucificar não, não quero dedicar meu precioso amor aos porcos. Não quero ser tolo. De agora em diante darei somente o quanto recebo - esperar somente o quanto o mundo me oferecer. Será que estou me excedendo? Estou me dando demais. Mas também já tenho muito. Tenho recebido muito. Acontece que sou mimado. Quero tudo, tudo. Quero o infinito, quero o fogo queimando minha carne ardente e minha alma salva e límpida. Quero fugir da solidão. Ser lambido dos pés à cabeça. Quero ficar sozinho também, para sempre. Não me lamba a bota, não mande em mim, não exija, me cansei. Deixe-me só, livre-se de mim, livre-me desse ditador da vontade e do desejo insaciáveis. Faça com que eu aprenda o que é a fome real e me sacie apenas com água e pão. Ah, não, isso não, isso é muito pouco, talvez seja o impulso de morte sádica lutando contra o meu próprio instinto de amor desejoso – ou é simplesmente a vontade da coisa em si, para que a vontade coincida com o mundo. Freud explica, explica como tornamos escravos e de onde vem minha melancolia. E, e a cura? Onde que está a minha cura? Eu preciso de cura, porque às vezes parece que carrego uma faca transparente e fria dentro de mim para toda parte que eu ando. E a faca fica mais afiada e funda quando é dia nublado e úmido. Ando com receio e em ponto de tensão, como se essa faca um dia fizesse com que eu sangrasse na frente de todos e não pudesse mais segurar meu choro. E provavelmente chorarei rios de lágrimas e dor, sangrarei meu íntimo e último sangue sujo que com tanto amor em toda minha vida guardei para mim e da minha barriga ferida escorrerá minha tripa marrom e cinza de vergonha. E, no momento do meu grande vexame, só quererei a morte. Eu sei que, desengonçado que sou, estou sempre a ponto de cometer algum vexame. Que meu destino me puxa para esse triste fim. Então, me contenho. E minha timidez me irrita.
Ah, é triste só de pensar. Eu só queria que me amasse. Mamãe, me guarde. 5:38 AM |
Domingo, Maio 27, 2007
Por que Nietzche é acusado de irracionalista?Porque a razão condena e limita a vida.
Porque a razão cria modelos, idéias e ideais, verdades e lógicas sobre um mundo multifacetado e com milhares de sentidos não apreensíveis a razão.
Porque a razão tem um viés moralista, pois ela sempre quer prevalecer sobre a vida espontânea, destruindo-a, subjulgando-a a suas regras.
Porque por trás da razão existe os instintos que o formam, portanto, a razão nunca é a verdadeira razão, a razão pura tão cultuada pela tradição filosófica e pelo pensamento moderno, ela é condicionada a uma vontade fisiológica.
Além disso, a razão talvez seja uma dos motivos do sucessivo fracasso da humanidade em busca da tal verdade, pois se a verdade for uma mulher, o que pode significar a sensualidade, sentimentos e aparência, nunca a conquistarão sendo isentos de sentimentos e extremamente racionais. Por esses motivos e mais outros que Nietzsche condena a razão e é considerado um irracionalista, imoralista. 5:00 PM |
Domingo, Maio 13, 2007
Doce, doce, doce, a vida é um doce, doce e mel, a vida é doce, tem gostinho de céu.1. Eu devoro olho de sogra e teta de nega. Mas juro que não sou canibal violento, não. Eu gosto de beijinhos doces também.
2. Era uma vez um menino que tinha alergia geral - respiratória e cutânea – a chocolates. Para o bem de sua vida, era proibido de comer chocolates. Mas o proibido tinha gosto de sonho doce e intangível.
Até que em um belo dia, sua mãe distraída deixou ao seu alcance uma cesta plena de chocolates, os chocolates mais apetitosos e mais deliciosos de todas as variedades e formas. Ele olhou a cesta e os chocolates brilharam em seus olhos faiscantes. Não resistiu, desafiou a morte e acreditou assim que ao menos morreria feliz. Todo seu desejo se transbordou e, sem medo e sem freio, devorou toda a cesta como um lobo ávido e voraz.
Devorava, lambuzava-se, derretia-se todo ao sabor de chocolate. As formas quase mágicas desfaziam em sua boca, coelhos derretiam-se em chocolate puro. Descobria novos sabores e sensações. Descobria no fundo o gosto de cacau autêntico adoçado que formava o chocolate liso e sólido pronto para ser entregue a uma boca. Descobria o chocolate alvo e leitoso, a sutileza fina do meio amargo, o bombom trufado, o chocolate amolecido e bruto, o chocolate gelado, o chocolate que amolecia cremoso, o aerado, o bolo fofo de mel que contrastava com a casca grossa de chocolate. Eram contrastes da mesma essência doce que se encontravam como uma espécie de milagre. Experimentava naquele momento toda a experiência possível pelo chocolate. O crocante massageava seus dentes e suas gengivas. Dominava cada pedaço com um amor lascivo. Descobriu em um dos bombons uma surpresa líquida de um doce sufocante e ardente que escorria em sua garganta. Nunca sentiu tanto, nunca descobriu tanto. O que sentia era maior que sua expectativa, o chocolate era mais gostoso do que podia estimar da beleza de suas tessituras.
Seus olhos estavam úmidos. Era o clímax em sua vida. A vida era finalmente doce, recebia na boca a felicidade justa. E o pecado mortal tinha gostinho de céu. De céu e veneno. O chocolate inocente era seu veneno, pobre menino. Foi então que seu corpo frágil reagiu e sucumbiu. E, como se pertencesse a um destino de gafanhoto macho, para felicidade última de uma vida breve, morreu feliz.
Feliz, deus queira que sim.
3. Como se a morte tivesse soprado o seu hálito da cozinha para a sala, uma brisa atingiu a mãe. Sentiu um calafrio na espinha e assustou-se, lembrando: “Meu filho”. Correu para cozinha e viu a cena mais assustadora de sua vida. Encontrou seu filho deitado no chão, lambuzado de chocolate, marrom, com a pele enegrecida e toda empipocada, em meio a embalagens e restos de chocolate. Pasma e culpada torturou-se ao lembrar que aquela criança bonita perdeu seu encanto de anjo. Transformado em gafanhoto seco, de pele áspera e olhos inchados horrorizaria todos no velório. Era o fim assustador e violento de seu filho. A sua distração violentou o seu filho inocente. E como Medeia desgraçada, disse para si mesma, sozinha, em desespero, com lágrimas grossas escorrendo sobre seu rosto de mãe amorosa: “Meu filho, me perdoe, meu filho. Mamãe não quis te matar, meu filho. Ah, malditos chocolates! Ah, malditos chocolates! O mal é sedutor e doce! O mal amaldiçoou o resto dos meus dias. Ah, meu filho, perdoe sua mãe! Ah! Eu te amava tanto, meu filho...”. A mãe prostrou-se sobre o corpo de seu filho e continuou os seus lamentos: “Oh, vida desgraçada. Não poderia ter existido um dia tão triste e desgraçado para uma mãe! Ver o seu filho morrer antes, não, é contra a natureza, está além do que um coração pode suportar, oh, meu deus! Que dor! Ah! Ah! Ah!Senhor, me leve também, não posso mais suportar! Eu, a criminosa, clamo por perdão e me deixe reencontrar meu filho no céu. Senhor! Devolva o meu filho, por misericórdia. Ah, ah, ah! Não posso mais...”.
Depois da Páscoa, logo viria o dia das Mães. Sem chocolates, pelo amor de deus. E sem filho, oh, infeliz mãe.
Terça-feira, Maio 01, 2007
Hoje meu blog faz 5 anos de existência. 5 anos! Meia década!:-O 7:40 AM | Primeiro Dia no Novo EmpregoFiz a entrevista numa sexta-feira, no centro empresarial; longe, mas em uma empresa de ponta, conceituada, multinacional. Testaram meu inglês e logo disseram que eu estava aprovado, mesmo não sabendo francês. Era altamente aconselhável fazer um curso de francês, pois todos ali dominavam a língua e era necessário para o trabalho. Emocionado e feliz, abracei os funcionários que me entrevistaram, uma chefa e um casal de pupilos, para logo receber as boas vindas, mas eles recepcionaram minha cerimônia alegre com indiferença, como total falta de necessidade.
Na segunda-feira, minha mãe me levou para lá. E dentro do carro, ela levava também um colega meu do antigo trabalho que se assustou quando soube que já tinha me demitido. Ele é um pouco prepotente, tem acessos de arrogância, mas é realmente inteligente, competente e se esforça em ir contra sua natureza para ser simpático. É muito parecido com meu primo nesse aspecto, e, nessa ocasião, ele estava fisicamente idêntico ao meu primo. Justifiquei minha ousadia dizendo que gostaria de seguir novos rumos. E talvez em pouco tempo, estaríamos nos cruzando em outra empresa, em um cargo muito mais avançado. Em despedida, nos abraçamos, com sorrisos cordiais, levemente encabulados.
Desci do carro e fiquei sozinho diante do meu destino de todos os dias futuros, no meu novo local de trabalho, lotado de pessoas que iam e vinham em passos rápidos e galopantes. Carregava uma mochila nas costas e duas malas; uma para carregar objetos pessoais, como livros e roupas para academia e outra para carregar o material do trabalho. E na mente carregava já a pendência de me matricular urgentemente em uma escola de francês. Era bom, porque havia tempo que queria estudar francês e bastou uma necessidade profissional para que essa vontade ganhasse prioridade e urgência em meus planos pessoais.
Só então notei que tinha me esquecido de vestir terno e gravata. Mas felizmente estavam dentro da minha mala de academia, só que eram o terno e a gravata que eu menos gostava - largos, amassados, bregas, de gosto duvidoso. Causaria má impressão aos meus novos colegas e risos internos aos meus novos rivais. Eu me vesti, resignado: não tinha jeito, era preciso enfrentar assim mesmo. Espero que os sapatos que tivesse na mala salvassem. No primeiro momento, não encontrei meus sapatos. E lembrei que tinha me esquecido de perguntar a que horas deveria chegar. Tinha chegado às 9:30, mas já eram 12:38. Provavelmente, eu estava muito atrasado. Talvez o jeito fosse desistir e fugir, fugir sem destino, afinal não poderia voltar ao que era antes, já havia me demitido, se ao menos pedisse somente uma licença, mas havia me metido num caminho sem volta. No segundo momento, vasculhando, virando e revirando todas as coisas na minha mala, não encontrei meus sapatos; ainda estava com meu tênis nada discreto, um par de chuteiras vermelhas que não combinava em nada com o terno cinza. Talvez tivesse que enfrentar assim mesmo e arranjar alguma desculpa, logo no primeiro dia de trabalho, antes que fosse tarde demais e a pior desculpa seria indesculpável.
Lembrei que, na minha avidez de passar na entrevista, não perguntei, o que é também recomendado não perguntar, sobre a remuneração e só então notei que estava correndo risco de ganhar menos que no emprego antigo. Começaria tudo do zero. E no terceiro e último momento, ao vasculhar todas as malas, não encontrei meus sapatos.
Acordei. E felizmente era uma terça feira, feriado do dia do trabalho. 7:04 AM |
Sábado, Abril 21, 2007
Eiki: Mamãe, é muito legal Clarice, né? Muito engraçado, porque ela escreve a história dos tímidos, dos que não acontecem no mundo. Tem um livro que ela descreve em várias páginas a vida em flagrante de uma pessoa tímida numa festa. E ela escreve com beleza, melancolia e poesia cada ato e movimento do tímido. Sempre tem alguém que comenta a quietude perturbadora do tímido – “A Virgínia está silenciosa esta noite”. Tem um momento engraçado que ela descreve a personagem tentando participar da festa, acompanhar os risos, os assuntos, mas, sem querer, se forma um círculo na festa e ela logo se vê excluida, livre e expulsa. E Clarice diz: “Ser expulsa era de sua própria natureza”. São páginas e mais páginas de agonias de um tímido numa festa, pensando e sentindo sobre sua postura, sobre seu sentimento, seu amor, seu ciúme e admiração pelas pessoas de falas claras e gestos certeiros e sedutores, medita sobre sua dificuldade de comunicação, brinca com sua própria embriaguez e solidão, lutando contra o sono, olhando a janela. É tão doloroso que chega até o ridiculo de a personagem cometer um pequeno delito enquanto ninguém a vê: arremessa o cálice pela janela, e ela descreve como um grande ato heróico essa pequena ousadia secreta: “Destruir o cálice nada tinha a ver com seu passado, como o tempo que se esgotava, era um instante acima de sua própria vida”. E ainda, no meio de tanta dificuldade, a personagem ainda reza em busca de amparo divino: “socorrei-me”. Hahahaha, muito engraçado e bonito, né?Mamãe, rindo, se acusando apontando o dedo contra o próprio peito: Sou eu! Você também, é o próprio? Você se viu?
Eiki: Hahahaha. Mais ou menos...É engraçado, né? Porque sempre escrevem histórias de grandes feitos e grandes heróis e ela homenageou os tímidos, os constrangidos, os escandalizados pela vida. E ela escreve de modo indireto, sem entregar os personagens a adjetivos objetivos, mas contando o seu estado íntimo e físico. Não diz, por exemplo, ela era tímida, mas diz: sua mão suava.
Papai: Mas mamãe é muito simpática e agradável...
Mamãe: Eiki, você devia escrever um livro: “O boicote”. Você sempre se boicota.
Eiki: Hahahah.
Mamãe: Você se boicotou na festa de casamento de sua tia, de sua amiga...E sabe por que você faz isso?
Eiki: Por que é mais fácil resolver as coisas pelo boicote?
Mamãe: Não, porque você acha muito legal, tão legal, que acha que não merece tanto.
Eiki: :-O (Oh, meu deus, socorrei-me). 12:34 AM |
Sábado, Abril 14, 2007
Em busca deEu era uma areia movediça, sem vontade retilínea, de aparência morna e a alma perturbada. Aceitava tudo e nada. Aceitava tudo, pois seguia a corrente da vida, mesmo sem acreditar num destino, deixava o acaso traçar minha vida. O que quer que fosse acontecer estaria bom, porque era mesmo assim, era sempre ruim. Minhas pequenas glórias e comemorações eram somente para a representação de mim para outros, pois, como areia indefinida e confusa, sem tempo e condições para me definir, eu somente poderia tomar para mim o papel que os outros me emprestaram – filho, aluno, menino, homem – aliás, esse último papel social em especial me é tão assustador! É como ousar ser Zeus, pelo menos para alguém como eu, que não tenho colhões para tanto. Sou apenas na hora urgente da guerra e da luta, mas no repouso não sou nada além de mim.
Então, sem objetivo nem uma vida a formar, vivia como quem descobria a cada passo que não havia nada a descobrir, a não ser o que já existe, sem maiores surpresas, sem um fundo de verdade revelador, mas uma superfície que se doa como uma verdade inteira do que apenas é. A vida era. O nada em sua plenitude. O vazio inteiro se impondo, o zero redondo sem um quê que somasse. Era a escultura dura e pedregosa sem forma, o assovio sem som, a canção sem voz, o tempo sem horas, a árvore desfolhada, a fonte sem água, a palavra sem sentido, uma estória sem fim, a vida sem morte. Eternamente oca, sem acontecimentos.
Mas no fundo não aceitava que as coisas poderiam ser tão ruins assim, e eis que surgia – e ainda surge, com menos freqüência - a revolta e raiva contra tudo e todos, de modo imaturo. Hoje amadureci – um pouco – mas amadureci, se é que maturidade significa aceitar com calma e resignação toda a merda que se produz e, além disso, conseguir com serenidade celebrar a merda como se fosse algo bom, porque é a vida, faz parte, é inerente, não tem como fugir da materialidade das coisas que nunca satisfarão todos os desejos que tendem ao infinito, todo desejo de poder, de justiça, de amar e odiar, de gozar e sofrer, de matar e morrer e etc. E se é não é inerente, é histórico, o mundo já começou e eu não posso fazer nada contra o mundo, senão apenas consumirei o meu estômago e perderei toda uma oportunidade de uma vida mortal e curta. Então, percebi, ainda que muitas vezes eu esqueça, porque é impossível manter sempre a consciência acesa, em contato com o absoluto, com a morte, com o verdadeiro – percebi que a vida é muito urgente, então, não posso buscar coerência, nem a perfeição, nem a solução de todas as coisas e respostas para tudo.
Não que eu tenha abandonado tudo e passei a viver completamente torto e sem esperança de encontrar a grande e a absoluta resposta, não, muito pelo contrário, é que de repente vi que a verdade se espatifou em pequenos cacos espelhados no chão e me vi abandonado e descabelado a cultivar cogumelos e úlceras no escuro duodenal, e resolvi me resgatar do fundo do poço, antes que fosse tarde demais. Isto é: resolvi viver sem pudor e sem frescura. Porque, por mais que ainda eu tenha um humor de velho, por hábito comportamental, ou como quiser, por minha essência ou personalidade, eu sou ainda jovem e não quero ficar me lamentando como uma escritora balzaquiana meio desconhecida, que declarou em uma entrevista, com uma voz toda trêmula e insegura, se equilibrando num sorriso nervoso: “Ah, eu era muito infeliz na minha juventude, e eu tenho muita nostalgia dessa época, não pelo que não eu vivi, mas pelo que eu poderia ter vivido, eu era muito boba, tinha medo de tudo”. Ela, um ser vivente que com muita melancolia e remorso nos peitos murchos e praticamente tocados somente pelas próprias mãos de santa, reconheceu: tinha a vida nas mãos e não viveu. Ah, que adianta ser santa e pura! Que adianta economizar tanto se tudo tem o seu fim, se tudo se desfaz na barriga dos vermes.
Para a vida valer a pena, penso, é preciso pelo menos um dia não temer de se perder. As pessoas lutam por uma identidade, acreditam que a sua profissão, os seus hábitos, as rotinas lhes darão alguma forma, quando essas coisas não passam de acidentes e obrigações. Não se buscam, procuram se catalogar em algum hábito, em algum estilo de vida, por temer o abandono. É preciso se abandonar pelo menos uma vez na vida. Não escolher a outra via: ao invés de comer carne, ser vegetariano; ao invés de ser capitalista, ser socialista; ao invés de crer em deus, ser ateu; ao invés de ser formiga, ser cigarra; ao invés de ser galhinha, ser um ovo. Não, não escolher qualquer via, qualquer catálogo, qualquer identidade artificial, recusar-se a desempenhar qualquer papel. É preciso viver e pensar com independência e lucidez sobre a realidade ou simplesmente não pensar, desligar-se todo e viver sob a inconsciência de um sonhador, conforme e desconforme quiser o impulso vital exacerbado e livre. Mas é preciso se encontrar, encontrar as próprias convicções ou a falta delas e não se integrar a dogma, clube ou seita.
Recomenda-se também fazer ainda com muita responsabilidade para não perder o emprego, é que depois do abandono completo provavelmente voltará à mesma vida, a não ser que não se tenha medo de ousar e descubra em loucura que nada do que acreditava ser e no acreditava era necessário para existir e ser. Porque loucura é lucidez exacerbada. Foi-se o tempo que era preciso apenas cabular a aula para tentar ser livre e não sofrer grandes conseqüências por isso. Mas a juventude é tão perdida que não sabe o que fazer com a liberdade: cabula a aula e não sabe para onde ir, ou foge de casa e sente fome e saudades. No entanto, esse é um impulso vital que um dia deve ser atendido, senão morre em vida.
Se eu vivi ou não vivi esse grande dia, ainda não sei. Se soubesse, eu também não contaria. É que essa travessia de um dia enfim ser e estar a serviço de nada é extremamente pessoal e incomunicável em palavras, ninguém pode fazer isso pelo outro. É o que eu acredito, pois certeza eu não tenho, já disse que não sei se realmente vivi. O que posso dizer é que sempre tento e, no primeiro momento, é preciso enfrentar uma angústia oceânica, pois é difícil e incerto para quem não tem um dom natural de conscientemente tocar a inconsciência profunda. Além disso, não necessariamente o resultado será maravilhoso, é preciso se abandonar por completo, inclusive as expectativas. Certamente, se é que já tenho resposta para algo, nunca se alcançará o todo universal, nunca se dirá tudo que o coração anseia dizer, nunca se revelará e se desnudará o mundo por completo. Pois atrás de um ponto sempre haverá um outro ponto mais fundo. O último ponto será apenas uma suposição provisória que o fôlego limitado pode alcançar no fundo do poço infinito.
Então, desisto.
Dou-me de presente ao mundo. E na hora desse terrível abandono, deve-se estar preparado para encontrar Deus ou o Diabo. Ou mesmo Nada. E deve-se estar preparado para reconhecer que a vida não se originou de nada mais além de um átomo. O que aconteceu foi o científica e fisicamente concebível e estatisticamente improvável de todos os elétrons seguirem a mesma direção e levitou-se um vaso. E da matéria inerte fez-se a vida. E seja qual for essa profunda revelação e esse encontro abismal e celestial, o orgasmo aglutinar-se-á ao sagrado, desfazendo todas as falsas divisões e refazendo toda unidade ultra-real, mais real que o real, que ultrapassa a razão e a lógica e o corpo. Assim perceberá que da verdade criou-se uma história mal contada que, por sua vez, originou a grande mentira da qual somos escravos. Religião e ciência. Então da verdade originou-se a mentira. E descobrir-se-á que o que precedeu a vontade de potência e os impulsos vitais tão estudadas pelos corações ateus era uma pedra e somente pedra, nada mais que pedra, que ao rolar por um abismo infinito de tempo e espaço adquiriu movimento próprio, autônomo e pensamente.
E disseram a mentira com a verdade: do barro se fez o homem. E sem considerar tudo que foi preciso para o barro tornar-se finalmente um homem, para a compreensão humana alcançar o universo, resumiu-se o infinito a um sopro de vida. O que podia ser que existe dentro do nada que o transformasse em movimento e vida? E o engano casou-se eternamente com o acerto, até que a morte os separe e nunca mais se saberá, e será para sempre um mistério. Um mistério cósmico e inútil para prosseguir a vida. Pois se pode viver sem conhecer os segredos da natureza. Sem conhecer suas origens e os motivos, nasce-se e prossegue-se a vida, como um peixe cego no oceano escuro. Sem saber, vive-se, come e ama, porque a vida é muito curta para desvendar todo mistério.
Nesse longo caminho, toda ciência se empenhou não para provar a existência ou a inexistência de Deus, mas para descobrir que o sobrenatural é o natural. Que o sobrenatural não existe. Que todo milagre que acontece no mundo e na natureza é um fenômeno natural. E que a vida se impõe para o bem e para mal. E que não existe um deus moral, nem que se crucificou para humanidade viver sob culpa ou que andou sobre o mar. Que se pode tudo, com ou sem deus. Porque a vida é dada. Com direito a eclipse e pôr do sol, pensamento e sentimento, olho e pele, lágrimas e sangue. 5:39 PM |
Quarta-feira, Abril 11, 2007
Um dia pensei, talvez eu esteja errado e certamente estou generalizando. Que as pessoas legais têm blogs chatos. E pessoas chatas têm blogs legais. Quer dizer, pessoas legais são desencanadas, felizes, animadas e escrevem assim: "Oie, stou escrevendo aki de novo! Axu que fui bem na prova di hoje. KKKK!" E as pessoas chatas escrevem assim: "Ah, que saudades eu tenho da aurora da minha vida...". Mas existe vida inteligente - e vida burra - nas duas esferas que se disfarçam nas formas.Eu acho que sou uma pessoa legal agora. Quer dizer, não sou uma pessoa naturalmente legal, mas sou uma pessoa que se esforça para ser legal para não causar muitos incômodos pela minha presença. Não acho mais legal ser chato. Pessoas chatas são engraçadas apenas à distância. Mas não fazem bem para saúde.
E escrever é frustrante, porque o que escrevo é sempre irrelevante e faço os outros perderem tempo. Se é que existem os outros. Mas, mas, é que, eu não tenho muitos amigos, aí, eu tenho que escrever, para sentir que estou conversando com alguém.
Oi, hoje eu vi - hoje e sempre - eu vi que é duro ser tímido. E é fácil ser um tímido chato. Hoje veio uma menina compartilhar mesa comigo, porque a lanchonete estava cheia. E a presença dela me incomodou muito.
Quando ela perguntou se poderia se sentar, meu instinto de defesa à minha insegurança ameaçou com uma cara feia para menina, para que ela se espantasse e decidisse por não sentar comigo. Mas eu sorri, gentilmente, quando ela se sentou e pediu desculpas pelo incômodo e eu disse: "Tudo bem". Mas não estava tudo bem. Eu tive que comer meu lanche mais rápido ainda e enquanto isso teria que inventar uma coisa pra fazer para não ter que olhar para cara dela. Aí, eu me debrucei no meu sanduíche e logo terminei. Mas tinha outro obstáculo: despeço-me da menina ou não? Ou digo apenas: "Com licença"? Mas pedir licença é uma coisa antiquada e muita formal entre jovens, será que não aprendi a viver essas coisas tolas? Então, não pedi licença e disse: "Tchau!", ao me levantar. E a menina sorriu, disse e fez "tchau" com a mão, abanando-a com charme. Fiquei muito impressionado com a simpatia natural e espontânea dela. 12:18 AM |
Quinta-feira, Março 29, 2007
Sem amor, a gente inventa...Ou não faz mal, limpa com jornal.Você vai se fazer de vítima se eu te fizer de vítima e vai começar a chorar. A culpa também é sua. De ter sido bobo e você também não acreditava muito no nosso amor. Você seguiu em frente, sem perguntar se eu iria atrás. Eu nunca deixei de dizer: está indo por sua conta e risco, eu ainda tenho muitas dúvidas. Mas você confiou em não sei quê, sem colocar a mão para trás.
Mas era isso tudo que eu poderia te dar mesmo. Porque não posso dar amor a quem não amo. Bem, a culpa também não foi bem a sua, digamos que foi do seu coração que se precipitou para o abismo. Eu não posso fazer nada e seja feliz e adeus.
Curar a dor do amor é um processo solitário, nunca vi ninguém salvar ninguém. Se hoje nós nos parecemos especiais, amanhã seremos apenas uma lembrança empoeirada de uma grande viagem, um chaveirinho. Despeça-se do seu grande amor como quem se despede da cidade visitada, porque o mais difícil está por vir, quando nos despedirmos da vida. Seremos somente poeirinha, chaveirinho, comidinha de verme. 11:49 PM |
Sábado, Março 03, 2007
Sobre o conto "Amor" de Clarice LispectorUm dos melhores contos da Clarice. É incrível como a escritora vai construindo o mundo subjetivo da personagem nas suas ações físicas, no relato da natureza. Ana é uma mulher que cumpre sua rotina, um pouco cansada, mas com amor, porque sem a felicidade também se vive. Então, ela preenche sua vida dedicando-se à família e transformando seu vasto espírito vagamente artístico, caótico, de sua juventude incerta, viscosa, disforme em uma vida de adulto, sólida, cumprindo um destino de mulher, como se fosse o seu próprio destino. Enfim, filhos, marido, casa, cozinha e rotina. Tudo que a tradição cultural exigia tomava para si, como quem constrói sua própria vida.
Quando nada precisava mais dela, era perigoso, pois o silêncio, a falta de afazeres no final da tarde poderiam levar Ana a mergulhar em seu espírito e encontrar-se, percebe-se sem identidade, sem o papel de mãe e de esposa, descobri-se mulher alienada de si mesma e do mundo. Um abismo na alma.
Existia nela algo que ela ignorava, um mal estar, um pequeno cansaço, de corpo e alma. E era preciso que ela encontrasse uma figura singular no caminho - o homem cego mascando chiclete - para que ela se descobrisse, projetasse sua angústia no cego, descobrisse-se um passarinho preso no escuro e sentissse uma vontade de viver, de forma autêntica, conforme seus impulsos de liberdade. Instigada, desviou-se de seu itinerário e foi para o Jardim Botânico. Ali descobriu uma natureza assustadora, bela, selvagem, nunca para ela antes revelada, pois sempre ignorou a vida, cumprindo o seu papel. Mas Ana lembrou-se de seu dever e voltou a sua casa, ao seu marido, a sua vida, a sua felicidade cega, medíocre e pequena, afastando-se do perigo de viver.
Mas a Ana nunca mais será a mesma, pois já atravessara o amor e o inferno. Fim. Fantástico, não? Sem denuncismo barato, racionalizante e explítico, apenas pela descrições de sensações subjetivas e sentimentais, pois é a essa forma de entender e aprender de verdade, de forma inteira, pois somente dessa forma que se alcança a chama da alma, Clarice nos esclarece e nos delata, expõe nossa mediocridade-alienação.
O que acho mais bonito da Clarice ao fazer "crítica" às mulheres de seu tempo, ao retratá-las, ela não faz com desdém como a maioria dos escritores, mas ela faz com uma profunda compreensão e piedade, uma compaixão toda íntima. Provavelmnete porque ela mesma se reconhecia como seus personagens, aliás, como ela dizia, ela era somente uma dona de casa que escrevia. Não eram por pura tolice que as mulheres tornavam-se mulheres que os homens queriam, mas é que seus próprios impulsos eram seduzidos e embaralhados para escravidão de cumprir o papel de mulher dona de casa e não dona de si mesma. 9:59 AM |
Quinta-feira, Janeiro 25, 2007
Você de repente não estranha de ser você?(Já que não tenho idéia do que escrever aqui, então, transporto o que escrevi ali).
Professor: "Da mesma forma como a relação dialética entre aparência e essência são características marcantes da obra de Marx, vejo que tenho muitos "eus" em mim mesmo e não concordo plenamente com o que todos dizem e fazem. Às vezes, sinto que preciso compreender que uma complementa a outra, mas até nesses momentos fico apreensivo com o fato de que posso estar sendo enganado por mim mesmo".
Professor,
Você não é Professor de Português e nem de Filosofia, né? Espero que não. Porque você começa com problema de concordância e lógica: começou seu argumento de forma pomposa, lançando Marx do nada, sem completar que cargas d´água Marx tem a ver com essa coisa. Não teve relação. "Da mesma forma como a relação dialética entre aparência e essência são características marcantes da obra de Marx"...Além do mais, a dialética marxista é materialista e basicamente seu pensamento é construído na dialética entre o capital e o trabalho. Não tem relação com o ser e não ser das coisas em si, da análise do "ser", da verdade por trás das aparências. A análise marxista não é metafísica, mas da realidade histórica por trás da ideologia, quer dizer: você confundiu as bolas, a dialética entre a aparência e a essência é platônica e não de Marx.
....
Sobre o intelecutalismo e o pensamento catalogado
Bem, Clarice lutava, em seu exercício de linguagem, contra a racionalização, a catalogação do pensamento pálido, os acacianos, o intelectualismo e sobretudo o falso intelectualismo que se inspira na literatura alheia, na "coisa já literarizada", e contra os que não pensam verdadeiramente na coisa em si. Se a proposta dessa comunidade é "Claricear", então abandonemos sim essas amarras, e olhemos as coisas mais de perto, como crianças, sem pensamentos viciados, porque entre o olhar do adulto e o mundo existe um modo de ver já enviesado, catalogado e por isso nos cegamos - não olhamos para o mundo, como uma novidade, e, com teorias, afastamos cada vez mais do mundo e de nossas próprias vidas. Um ótimo psicológo descobriu que não sabia de nada dos pacientes, e, para conhecê-los realmente, para ouví-los e ajudá-los nessa busca do autoconhecimento, teve que abadandonar aquela certeza de outrora de que sabia de todos, de que as pessoas sofriam de Complexo de Édipo...
Sobre a dialética
(Talvez eu responda o tópico dessa vez).
Bem, pensar de um modo dialético sobre si mesmo é fugir de si, é não ir mais a fundo e ignorar a escuridão e a luminosidade submersas na pele, dentro da alma, onde sequer a linguagem e o pensamento podem atingir. Pensar de um modo dialético é pensar sempre na luta entre dois opostos, do sim e do não, da essência e da aparência. E como pensar em dois se os significados de mim e do mundo tendem ao infinito? Como falar da oposição entre a aparência e a essência, se o que aparece coincide muitas vezes com o que se é: vejo um ovo e o ovo é ovo. Como falar em essência se dentro de mim existe uma escuridão infinita, caótica e indefinida que somente em alguns instantes esboça alguma forma? Blá, blá, blá e etc. Se de repente me estranho ser eu? Já não estava na hora de eu me acostumar a ser estranho de mim mesmo? 10:34 AM |
Sexta-feira, Janeiro 19, 2007
Exercício de futurologiaSe eu morrer, eu vou morrer de enfarto, atropelamento ou suicídio. De enfarto, porque sou nervoso e tenho colesterol alto – um dia a veia estoura. De atropelamento, porque sou distraído, leio livro andando na rua, muitas vezes já quase fui atropelado e costumeiramente ouço: “Abre o olho japonês!”. De suicídio, porque todos infelizes que sentem uma raiva e um pensamento extremados sempre têm a tendência de buscar essa solução trágica. 9:37 PM |
Quarta-feira, Dezembro 20, 2006
Meu deus, a humanidade é muito besta...Olhe no Orkut como são as pessoas e querem sempre melhores que as outras em algum quesito mesquinho.
Na comunidade do “Nietzsche”, sempre tem briga de quem sabe mais e sempre alguém grita, com autoridade: “Vão ler Nietzsche, galera”. Não precisa ter muito neurônio e muito fôlego filosófico e científico para ler Nietzsche, porque ele é literário, poético, lírico e hoje é muito popular. E, para entendê-lo, basta ler um comentador que vem tudo explicado, organizado e mastigado. Então, para que tanta briga e arrogância?
Na comunidade de “Musculação”, sempre tem briga de quem é mais forte que o outro e sempre tem um que xinga o outro: “Seu frango!”. Mas não precisa carregar muito peso para ficar bombado, não, é só tomar uns suplementos. Gastar 80 reais com Whey Protein que incha igual bolo com fermento. Parece briga de pavão.
Na comunidade “Louis Vuitton”, sempre tem briga de quem é mais rica que a outra e sempre tem uma que xinga: “Sua pobre. Sua bolsa deve ser falsificada!”. Ora bolas, mas hoje em dia, não precisa ser uma aristocrata que nasceu com a bunda virada para lua para ter uma bolsa com preços estratosféricos. Soube que hoje em dia a loja brasileira até parcela. Então, qualquer assalariada pode adquirir uma bolsa original, só economizar um pouquinho na mensalidade das crianças, coloca tudo em escola pública e ainda ganha uns bônus na Fuvest. É, nesse caso, é, sim, briga de perua. 10:05 AM |
Terça-feira, Dezembro 19, 2006
Eiki ajuda...Oi, você mulher do coração quebrado e da alma aflita, estou aqui para te ouvir e te ajudar, com minhas diquinhas de viver melhor e com sabedoria!:-D
Vamos ler uma cartinha. Vamos ver...Olha, da Dona Catifunda! Olha, até ela, que parecia tão macha tem suas dúvidas do coração!
"O primeiro encontro é decisivo?!".
Bem, bom e boa.
Não existe segundo encontro não, se o primeiro não foi bom. Ninguém dá desconto se alguém foi tímido demais ou pedante demais, já era. Quem mandou se comportar assim? Na prática é assim, o mercado de paqueras anda, ferve, está todo mundo louco para satisfazer seus desejos, suas expectativas e suas carências. Não é verdade? Noutra semana, se um não liga para o outro, mesmo aquele que gostou, já está procurando outro. (Acho que todo mundo já aprendeu a viver no automático, e no massificamente difundido: melhor forma de esquecer uma pessoa é com outra). Eu li numa entrevista da Veja - sim, as páginas amarelas é uma das poucas coisas que prestam lá, porque não é a Veja que predomina, é o entrevistado - que o cara dizia que enquanto a mulher fica se roendo e chorando e analisando por que não deu certo, o que fez de errado, o homem não pensa muito, simplesmente procura outra.
E quando se trata de dois homens, mesmo aqueles com pouquinho de alma feminina, não enrola mais não, chora um pouquinho, se xinga de bobo, briga com o coração que se apega fácil, mas na semana que vem já está inteiraço, na batalha! Conheço muitos amigos assim...Até que a gente cansa, chora, conforma com a solidão e aprende a viver sozinho, mas feliz, não é? Esse é outro estágio evolutivo....Não buscar no outro a sua fonte de felicidade.
Ah, se acontecer daquela pessoa que você não gostou muito asssim telefonar? Ah, sim, eu já relevei muitas coisas, já dei muitos descontos. Principalmente porque não acredito muito em amor e encantamento à primeira vista. E geralmente quando estamos lúcidos tendemos ser mesmo muito críticos. Mas é preciso ser muito cuidadoso. Eu sou bastante intuitivo, mas minha intuição não vale para muita coisa. Quando conheço alguém e falo com ela por um tempo, já sei mais ou menos o defeito ou desvio de personalidade que pessoa tem e geralmente acerto. Mas aí relevo, porque é só o começo. Mas é aquilo que relevei e detectei quando estava mais racional que me faz geralmente sofrer quando já estou emocionalmente envolvido e apegado.
Então, conclusão: escolher um namorado ou um companheiro pra vida não é escolher o príncipe encantado, não é somente escolher com quem você quer compartilhar seus momentos, mas é também qual defeito você terá que suportar para o resto de sua vida e quem suportará você. Sim, porque todo mundo tem um defeito dificil de lidar, não é mesmo? Mas alguns já acho que passam dos limites da normalidade e chega a ser doentios.
Estou ainda aprendendo a viver, mas hoje em dia escolho até meus amigos e peço até licença para alguns não fazerem tanto parte da minha vidinha.
E não adianta querer mudar as pessoas, não. Acho que depois dos 20, os defeitos vitais não mudam. Depois dos 30, a pessoa já é e já era. Pensem: se já é dificil curar a timidez...Podemos até amenizá-la, mas de uma hora para outra o tímido crônico se entrega. Então, imagina o quanto é dificil reeducar um comportamento de alguém que desde sempre se defendeu com mentiras, por exemplo? Não é defeito gravíssimo? Então, ninguém muda ninguém, só muda os acessórios, mas o centro vital da personalidade, minha filha, é melhor perder as esperanças e, se for o caso, o amor também....
Beijocas, amore! 9:15 AM |
Terça-feira, Novembro 28, 2006
Back-upEu tinha uma lista de todos os meus livros e a data que eu tinha os lidos. E tive uma grande idéia: transcrever a melhor parte de cada livro. Tinha selecionado o(s) melhor(es) trechos de cada livro; procurei, vasculhei, folheei os meus livros, transcrevi, digitei-digitei, procurei na internet. Apesar de todo trabalho, foi divertido, eu ria e me deliciava com os trechos que eu lia e relembrava. E meu computador pifou. E minhas fotos de viagens, das minhas peças, todas foram embora, todo o meu trabalho, todo os meus registros. Ah, sim, eu fui muito burro, eu poderia...sim, poderia...Respiro fundo. Tenho que ter despreendimento e recomeçar a vida. Caralhoooooooooooooooooooooo! 7:33 AM |
Domingo, Outubro 01, 2006
Eu - Brasil - tenho vergonha de releger um governo com a corrupção tão escancarada.Amanhã os petistas fanáticos e a manada desinformada e seduzida pela ilusão do São Lula e os conformados com "é assim como as coisas funcionam" irão às urnas.
Muitos irão com mesmo constrangimento e em silêncio como fizeram os malufistas - fizeram e farão ao protegê-lo de investigações ao elegê-lo como deputado.
Brasil, vamos tomar no cu, não temos mais jeito!

Sábado, Agosto 19, 2006
Oh, sim, chegou a hora...Ah, como ficaria aliviado se eu pudesse liqüidar com esse espaço definitivamente sem remorsos, sem hesitações, com um desfecho solene.
Sabia que eu pensava que esse blog terminaria com um final feliz, igual a uma história de Cinderela: e ele viveu feliz para sempre.
Ou eu também imaginei uma coisa mais boba ainda, de modo bem livre mesmo, sem nenhum comprometimento com a realidade, tive esses sonhos frívolos; como nesses sonhos utópicos, uma verdadeira história épica, cheia de glória, para alguém ordinário como eu, eu terminaria esse blog e imprimiria tudo e transformaria num livro secreto para mim. Mas tem tanta porcaria nesse mundo...e já publicam tanta porcaria que....vou manter minha sanidade e poupar o mundo e minha diginidade.
Mas a verdade é não tenho coragem, não queria deixar isso morrer.
E se, de repente, eu tivesse mesmo alguma coisa para dizer, finalmente teria algo relevante a dizer? A que meio eu recorreria? O blog, né?
Mas eu tenho sido tão negligente, que ninguém mais lê isso e conseqüentemente não tenho vontade de ler ninguém que não me lê mais...
Mas só essa esperança de que alguém possa ler o que eu escrevo já dá uma grande satisfação para meu coração solitário. É... é gostoso escrever assim, sem compromisso. É como se eu tivesse um amigo, sempre disponível e pudesse dizer qualquer coisa, que ele iria me ouvir e guardar em sua memória.
Minha vida mudou muito de uns tempos para cá. Eu estou muito bem, na medida do possível. Acho que uma das razões que me contribuiram é ter esquecido do blog, aí, não tinha mais nenhum confissionário me obrigando a me comportar de uma maneira coerente, me vigiando. E de repente, eu podia viver sem precisar ser a todo tempo interessante, sem precisar ter que dizer e pensar sobre tudo que me rodeia. E podia viver coisas interessantes, sem aquela obrigação de ter que registrar no diário. Enfim, eu vivo e penso somente o necessário. Antes eu pensava muito e não chegava a nenhuma conclusão e isso atrapalhava muito a minha vida. Hoje sou um pouco mais livre do meu pensamento, sou um pouco mais espontâneo, eu acho.
Eu acho. Ih, já começou! Chega!
Portanto, decidi continuar por aqui e voltar aqui, sempre que precisar... 11:47 PM |
